Uma casa branca.
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Uma rotunda, um eucalipto no centro.
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Uma curva à esquerda e uma subida íngreme.
Raúl encosta o carro, baixa o som ao rádio, lança a beata do cigarro pela janela e diz no seu timbre seco com que sempre fala:
-Chegámos. Precisas que espere por ti?
-Não, obrigado... - Responde o colega - Podes ir andando, obrigado pela boleia.
-Ok, vemo-nos amanhã.
-Sim, adeus...
Vê Raúl arrancar no seu Rover cor de cereja, enquanto sacode o casaco para, em vão, tentar livrar-se do cheiro do tabaco.
(Que cheiro horrível...) - Pensa -
(Mania que as pessoas têm de fumar dentro do carro... Será que ele ainda não percebeu de onde veio aquela grande mancha amarela no tecto do carro?)
Olha para o outro lado da estrada e instantaneamente volta-lhe à memória a razão de estar ali. A razão de ter pedido boleia ao Raúl, um colega que normalmente entra no escritório mudo e sai calado. Talvez por isso lhe chamem coisas ternurentas como "o morto" ou "a planta"...
Bem, mas voltando ao que o trazia aquele bairro pouco aconselhável.
Atravessa a estrada e passa debaixo do letreiro que estava sobre a entrada:
"ForniCar"
No norte do país há pelo menos 4 localidades chamadas Fornelos e pelo sotaque do Sr. Esteves, ele ainda não tinha sido capaz de perceber de qual delas é que o homem era originário.
Na volta era dali de perto, de Alfornelos...
Mas aí podia-lhe ter dado um nome mais literado: AlfaCar!
Tudo para a sua viatura, de Alfa a Zeta!
Ou a Ómega... bem, de qualquer das maneiras, via-se que o Sr. Esteves era um homem de humor apurado para ter posto aquele nome à sua oficina...
-Bom dia!
-Bom dia, diga faxavor!
-O meu nome é Vítor Rocha, venho buscar o meu carro, que deixei cá para revisão. É um Lancia Y10...
-O seu nome por favor?
-Vítor Rocha.
-Vítor, Vítor, Vítor... É com ou sem c?
-É sem...
-Ah bom, porque é que não disse logo? O computador não adivinha e eu também não, não é homem? Ora Vítor... Rocha! Aqui está. É um Lancia Y10 não é verdade?
-É sim, tinha-lhe dito há pouco...
-E estava cá para quê? Foi batida foi?
-Não... Para revisão, também lhe tinha dito logo de início...
-Ora muito bem... Então é só um instante que eu vou só aqui imprimir a factura... Ora... Aqui está ela... Portanto, como lhe tinha dito ao telefone, não foi preciso mexer nos travões, nem na suspensão, o motor 'tava bom, o óleo também... Em baixo também não se mexeu...
Ao telefone, o Sr. Esteves tinha dito ao Vítor que após a revisão, pouca coisa tinha sido mexida, pelo que o Vítor, satisfeito, fazia contas a 200€ ou 300€ da revisão, o que até calhava bem porque as coisas não andavam famosas a nível de dinheiro.
-Ora então, são 1100 euros se faz favor!
Vítor baqueou...
Engoliu em seco e na sua cabeça ecoava aquela frase:
mil-e-cem-euros......
mil-e-cem-euros..........
mil-e-cem-euros...............
mil....
-Dd..desculpe?!
-Mil, cento e dois euros! Mas como é para si, fica a mil e cem vá!
-Então mas... Vítor... Rocha... sem C, é essa a factura que tem na mão, é?
-Claro homem, não é um Lancia?
-É sim... um Y10...
-Então, queria que a factura fosse de quem? Hoje em dia já ninguém tem essas caixas de fósforos eh eh... Nós aqui costumamos chamar-lhe o caixão com rodas, eh eh... Bem mas estava eu a dizer, vai pagar em dinheiro ou cartão?
-O caix... herr... bem, vou pagar com cartão... (epá acho que não tenho saldo para tanto!) Mas desculpe lá, diga-me lá o que é que foi mudado... o sr. Esteves tinha-me dito ao telefone que o carro até estava maneirinho...
-E estava e estava, para a idade que tem, não está nada mau, por isso é que também lhe ficou por este valor mais barato.
-Barat... então mas diga, pronto...
-Ora então, isto foi assim: o carro estava todo a funcionar, por mim nem lhe tinha mudado nada, mas aqui o Sr. Esteves como gosta de fazer as coisas pelo seguro, sempre pelo cliente, achou que devíamos trocar a correia de transmissão que já estava assim pró manhosa. Também é só 150€, elas agora tão ao preço da chuva!
E pronto foi só isso.
Só que depois a correia de origem já não se faz, logo foi preciso mandar vir uma nova que é maior e então não dá com os apoios do motor...
Assim, tivemos de mandar vir um apoio novo, e como não podem ficar com diferença uns prós outros, veio um kit de apoios novos, mais os respectivos suportes.
E o Sr. Esteves como é muito cauteloso disse assim: epá até parece mal estarmos a mudar os apoios do motor ao homem e deixarmos as velas e o carter por limpar. Mas depois também a mão-de-obra que o Sr. ia pagar para isso tudo mais valia mandarmos vir novos e então pronto, olhe também não era por mais 300€ que ia o gato às filhoses não é?
-Trezent...
-Ora então, disse que ia pagar com cartão não é verdade?
-Sim... (*suspiro*... a dor no peito não parecia querer passar...)
Vítor entrega o cartão, como quem está a entregar um filho para nunca mais o ver, o empregado passa o cartão e o ecrã pede o código...
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[POR FAVOR AGUARDE]
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(Ó que grande bronca, isto não vai passar...)
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[AGUARDE EMISSÃO DE RECIBO]
-BOA!!! herrr.... quer dizer, boa tarde que se está pôr agora para o fim do dia! eh eh...
-Pois... - responde o empregado meio sobressaltado pelo berro vigoroso de Vítor -
(Epá este mês vou ter de andar a sopas...)
-Então e diga lá, arranjaram-me o espelho lateral como eu pedi?
-O espelho... O espelho lateral? Ah sim, o espelho. Ah olhe que o espelho não precisava de arranjo, o Sr. tem é de carregar naquilo com força.
-Com força?
-Sim sim, venha cá que eu mostro-lhe!
Entra o empregado para o carro, um Lancia Y10, e carrega no botão da porta que faz mexer o espelho.
Nada...
-Tá a ver? aperta aqui...
Nada...
-Assim... humpf... hrgggrr...
O espelho jazia inerte...
-Epá, agora não tá a dar... Há pouco.. hrrrrrrrrrrgggggrrrrrr..........
Vítor observava estupefacto que apesar do orçamento enorme que lhe havia sido apresentado, estava à vista que o trabalho realizado não tinha sido dos mais bem executados...
Para além disso, a força empregue pelo empregado da oficina no botão, parecia querer forçar a porta do carro para além dos seus limites...
-Pronto... bem... já sabe que só tem de carregar com força, que isto o espelho está bom, o botão é que tem mau contacto... mas é só apertar com força...
-Então mas... - ia Vítor interpelar -
-Aqui em relação às luzes, tinha-me dito que o farol esquerdo estava mais baixo que o direito, mas não, você é que tem de regular aqui neste botão está a ver?
Ora... Epá...
Olha por acaso só está a subir o direito, mas isto é porque só estou eu aqui no carro, isto com mais peso, o carro sobe a frente e já ficam as luzes iguais...
Vítor estava desolado... Mas pronto, já tinha pago, pouco mais havia a fazer... Se pedisse para lhe arranjarem as luzes e o espelho ainda ia pagar mais... Mais valia estar calado...
-Não sei se precisa de mais alguma coisa...
-Não... está tudo...
-Pronto aqui tem a chave então, obrigado e volte sempre!
(Volto nunca...)
Nisto aparece o Sr. Esteves...
-Então rapaz! Que tal? Ficou aí com um servicinho à maneira e por um preço que se contar a alguém nem acreditam já viu?
-Pois... nem eu acredito ainda...
-Então, que cara é essa? Não me diga que achou caro!?
-Eu por acaso... confesso que não estava à espera deste valor, depois do que me disse ao telefone...
-Mas estava à espera de mais ou menos?
-Mais, mais... assim dá gosto pagar... baratíssimo, baratíssimo...
(Levam-me o dinheiro mas não me levam o orgulho!!)
-Então pronto! olhe se precisar de alguma coisa, passe por cá, estamos abertos todos os dias!
-Sim, sim, passo, passo...
(Se estiver bêbado ou assim...)
Vítor pega no seu Y10, um Lancia e sai da oficina, seguindo caminho rumo a casa.
Continua a ecoar na sua cabeça o valor da reparação e quase que tem vontade de ir à esquadra da policia participar um assalto...
Mas pronto, segue para casa, já não há nada a fazer...
segunda-feira, 5 de maio de 2008
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3 comentários:
O sossego do lar é, a todos os níveis agradável, e não é, em situação alguma, alvo de descoramento.
E era nessa paz de espírito e serenidade cátedra, que me encontrava, no serão de mais um domingo na vida deste mísero individuo.
Contudo, esse seria um domingo que estaria destinado a não ser apenas "mais um domingo"...este era especial!
Passavam vinte minutos das onze da noite, quando a minha alma foi repentinamente invadida por um ímpeto de júbilo e gáudio.
A notícia do ano acabava de me ser transmitida e eu, atónico, padeci de uma reacção que carecia dela mesma.
Mas afinal...o que move este individuo? Qual o combustível fossil que este ser utiliza, para fomentar tamanha genialidade traduzida em palavras? È esta a questão que urge ser colmatada céleremente...e nao...desengane-se quem pensava que a pergunta que sempre atormentou a humanindade, era se haveria vida para além da morte...muito menos a infundada e inútil curiosidade de se saber o sexo dos anjos...nao, meus amigos...a grande questão que me atormenta é mesmo esta: "será este individuo obra da graça divina? Será este ser um mero e simples mortal?" Pois bem, são várias questões, eu sei...mas que estão envoltas em tal mistério, que me assombram o cerebrelo e boa parte do córtex central.
Bem vindo, individuo do caraças!
devido ao facto de me encontrar à senoute da jornada diária, votos de uma excelente noite para o sr.vítor.
dado que o meu caro e querido colega, amigo e comparsa pedro silva, (o indíviduo no ponto cardeal sul deste comentário) com quem tenho agradibilíssimas querelas lexico-vocabulares que já assumem um lugar intrínseco à minha existência, informou a minha pessoa do gosto que teria o senhor vítor de visionamentalizacionar um comentário da minha autoria, engenhando em recordar.me tal facto com crescente porfia, assenti então deixar simples, simplórias e somenas observações que, oriundas da minha pessoa, não constituiem nada de surpreendente, a tal blogue.
dá-se então em mim o ensejo de congratular o sr.vítor por tamanha e a todos os níveis inédita genialidade bloguista! a cada nova oração gramatical escrita pelo sr.vítor, desprendem-se das minhas cordas vocais, larige e faringe, e por fim cavidade bocal, autênticas gargalhadas espontâneas que tento, em vão, manter frugais...e é na mais extrema adversidade, como na enfermidade oriunda de parcas horas de sonolência, que o blogue do sr. vítor raia todo o seu esplendor, que exabundam os risos estridentes, como raio astro-solar no terminus de uma passagem subterrânea negregada e lúgubre, sugestão aliás expressa pelo meu querido amigo e companheiro pedro silva (o indivíduo supramencionado).
os meus sinceros e verdadeiros agradecimentos por tal blogue, sr vítor, e expresso-lhe a minha total aspiração que tal actividade bloguista continue a trazer a felicidade a todos os privilegiados dotados de ligação telefonico-cibernética à rede informática internacional..
tudo de bom! =)
Foi com apreço que li os dois comentários acima, porque por mais brilhante que possa ser o músico, a sua mais elaborada melodia a nada soa, se não houver alguém para a ouvir!
Assim, tenho o privilégio de sentir três prazeres distintos:
-O de escrever,
-O de de ler,
-O de saber que mais alguém desfruta do que foi escrito...
Curioso no entanto que o meu velho amigo Pedro e a minha nova amiga katinha tenham cada um cometido um pequeno lapso, distintos no objecto, idênticos na forma.
Dilui-se o amigo Pedro em questões, tendo como dúvida a natureza da minha pessoa, se terrena, se astral.
A questão é fácil de responder, porque a resposta já a sabemos:
Não sou mais nem menos do que todos aqueles que me rodeiam, porque são todos esses que fazem de mim o que sou!
Já a minha amiga katinha opta por dirigir o seu comentário e consequentemente as suas considerações à pessoa do Vítor, que para além de carecer da letra C no nome próprio, carece também de existência!
Ora correndo o risco de entrar numa espiral de considerações cartesianas, pergunto como pode alguém que não existe, dar existência a outras coisas, tais como um texto, um blog, uma opinião?
Assumo que não falo inteiramente verdade quando nego existência ao Vítor.
Ele existe de facto e é muito fácil de o encontrar:
Fechem os olhos e espreitem para dentro de vocês mesmos!
Isso mesmo! Ele existe dentro de todos nós!
Os meus sentidos cumprimentos a ambos e a todos aqueles que aqui deixam o seu tempo!
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