domingo, 25 de maio de 2008

Os amigos

Os amigos são algo que todos nós pensamos ter, todos gostamos de ter e todos precisamos de ter, mas que só alguns de nós temos, verdadeiramente...

Quantas vezes não depositamos a nossa confiança em alguém e quando achamos que ela está entregue em boas mãos, somos apunhalados, com a frieza própria dos assassinos, despindo-nos de toda a nossa credulidade e confiança em quem nos rodeia?

Quando fazemos de um pai, um irmão, um companheiro o nosso melhor amigo, estamos a jogar tudo... Uma traição aí tem o seu impacto amplificado 100 vezes pois perdemos 2 ou 3 pessoas numa só.

E há traições que são imperdoáveis.

Tomemos como exemplo, um exemplo completamente escolhido ao acaso, o do Vítor.

Um tipo com uma vida simples, esforçada, por vezes dura, por vezes amarga.

Apesar do seu esforço em levar as coisas para a frente, a pessoa em quem mais ele deveria poder confiar, revelou não ser merecedora sequer de consideração...

Tomou-lhe tudo, ele deu-lhe tudo e quando ela lhe tinha tirado tudo, traiu-o.

Vítor tomou a única atitude possível e partiu.

Pelo correio chegou o final da lâmina que o trespassara há um ano, primeiro de forma inesperada, depois de uma forma lenta e dolorosa...

Eram os papeis do divórcio.

Sim, para além de ela lhe ter tirado tudo, queria mais.

Mas quando se tira tudo e nada fica, o que há mais para tirar?

A honra e a dignidade.

E essas, nenhum tribunal poderia penhorar!

Hoje, Vítor era um homem diferente.

Igual a si mesmo, mas mais maduro, forjado no fogo do desgosto e de onde emergiu qual fénix flamejante.

Agora tinha uma casa dele, tinha um carro, tinha o seu espaço e um emprego melhor.

Um emprego onde era respeitado e onde lhe davam a hipótese de mostrar o que valia.

E no trabalho, de alguns colegas acabou por fazer amigos...

Ou assim pensava ele...



-Desculpa, tens um agrafador que me emprestes?

-Herr... desculpa Vítor, mas não usas o teu porque...

-Não sei dele... tinha-o na minha secretária mas alguém o deve ter tirado de lá...

-Então e porque não usas um clip?

-Herr... eu precisava mesmo de agrafar estas folhas... um clip não dava...

-Eu até te emprestava o meu agrafador mas... sabes... já o tenho há muito tempo, acompanha-me desde o me início cá na empresa... tenho-lhe muita estima...

-Raúl, é um agrafador!!

-Desculpa mas não é um agrafador qualquer!!! É meu e se eu não quiser, não empresto!

-Pronto ok, tudo bem... Mas é só para agrafar aqui estas duas folhas...

-Epá desculpa mas não, para te emprestar a ti depois tenho de emprestar aos outros...

-Raúl, mas quais outros? Só estamos aqui nós os dois...

-Epá já disse que não e não insistas!!

-Vá lá...

-Não!

-Só um!!

-Não!

-Então podes agrafar-me tu?

-Ahhhh..... é melhor não, já tenho poucos agrafos e posso precisar...

-Raúl... eu peço mais depois...

-Ah, mas pode não haver!

-Então e se eu te der uns dos meus?

-Um do... não, não! O meu agrafador não está habituado aos teus agrafos, só aos meus... Pode encravar ou pior...

-hmpfff.... É que eu precisava mesmo de agrafar isto...

-Epá desculpa mas é que não posso mesmo, se fosse um clip eu até te dava mas assim não posso...

-Oh Raúl....

-Sim?

-O teu agrafador não é vermelho?

-É... porquê?



-O que faz na tua mesa um agrafador azul?! IGUAL AO MEU!!!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Pequenas mudanças (8)

Segunda-feira, sete e dez da manhã....

"Caros ouvintes, passam dez minutos das sete, vamos ter a informação de transito já a seguir, com...

*krrrrkkkk.....*

(Hmmf... isto nem com rádio vai lá... que preguiça...)

Vítor já não tinha aquele despertador irritante...

Tinha ficado na casa velha, juntamente com a sua vida velha.

Despertador novo, vida nova... ah e casa nova também.

E emprego novo...

E... e... bom...

É incrível como tanto mudou num ano, pensava Vítor em voz alta.

Fazia 12 meses certos que estava na casa nova e de olhar para trás e de se lembrar de como tudo tinha sido e de como tudo era agora, parecia quase impossível.

A casa era pequena, é certo. O seu carro também não era propriamente de luxo...

O emprego era respeitável também, mas nada de outro mundo.

Os estudos também não davam para mais.

Mas tinha um espaço que era seu, fazia o que queria, dentro do que podia, quando queria, quando lhe apetecia.

Não tinha de dar satisfações a ninguém, só a ele mesmo.

Sentado na cama, olhava para o roupeiro e recordava o dia em que se mudou.

O dia em que lhe entregaram a mobília .

Em que lhe deixaram cair o sofá pelas escadas abaixo...

O raspão na parte detrás do sofá era tal que parecia o mapa do Brasil...



Ainda se lembrava de ter visto aquele papelinho no chão...


---------------------------------
PIQUENAS MODANÇAS
BARATO
RÀPIDO
TLF: 965648895
---------------------------------

Sem saber muito bem como, acabou por fazer uma espécie de negócio e ficou com umas mobílias "semi-novas" que um amigo lhe vendera. O amigo ia-se casar e comprar casa e então queria-se desfazer de algumas coisas.

O dinheiro não abundava e por isso, assim foi.

Como não podia fazer a mudança sozinho e com o seu pequeno Y10, teve de pedir ajuda a "profissionais especializados" e aquele papelinho era dono de um binómio apetecível:

"Barato e Rápido"...


-Ora... Nove, seis... cinco, seis, quatro... hmmm...ok...

*tiiiiiiit............tiiiiiiit..........tiiiiiit......*


-DAH!?

-Hãn!?

-DAH!!

-Estou sim?

-Quem falar?!

-Herrr.... Fala... olhe eu vi um papel na rua... dizia que fazia mudanças... se calhar enganei-me no número...

-Querer mudança?

-Sim... era para...

-Onde mora sinhor?

-Ainda não moro, vou morar só no...

-Morar em Lisboa?

-Herr.... sim... sim é em Lisboa...

-Muito bem sinhor! Dizer dia e Dmitry e colegas fazer mudança, não problema!

-Ok... aaah... e têm carrinha?

-Tem qué?

-Carrinha, para levar móveis...

-Sim, ter carro para transportar sinhor e mobilia! Não problema!!

-Ok então... eu depois ligo-lhe a dar a morada...


E ligou!

Pareceu-lhe um bocado manhoso, estar a meter um tipo de leste a fazer a mudança, mas a verdade é que o valor que ele cobrava por hora justificava o risco... e também lá por ser de leste não queria dizer que não fosse profissional e competente... ou assim ele pensou...

No dia da mudança, aparece-lhe à porta uma dupla, completamente improvável...

Vê chegar uma carrinha branca, já bem velhinha...

De lá de dentro sai um homem. Muito loooooooiro...

De seguida sai outro... muito escuuuro... daqueles que nem são bem pretos, são já quase roxos de tão escuros que são.

-Sinhor é sinhor que telefonou Dmitry por causa de mudança?

-Sim sou eu... herr... os seus colegas vêm noutra carrinha é?

-Colegas? Não ter colegas sinhor. Ser só Dmitry e aqui amigo Damir T!

-Damir T?


Diz-lhe o negrão do alto dos seus quase 2 metros, numa voz bem grossa, parecia uma tuba:

-É méu nome pá! Damir é o nome que a minha mãe mé pós! Damir T é nome de rua! Tem problema?

-Nnn...não... não tem problema... portanto Dmitry e Damir T... vou tentar não me esquecer...

(Oh mãe... só me calha disto...)

-Onde estar coisas sinhor? Poder começar a levar...

-Estão aqui na garagem... deixe-me ver qual é a chave...

O seu amigo tinha-lhe dado um molho de chaves todas muito parecidas... uma daquelas era a da garagem onde estavam arrecadados os móveis.

Aberta a garagem, Vítor ficou extremamente impressionado por ver Damir ou Damir T, para os amigos, a levantar um sofá de 3 lugares no ar, sozinho e com as próprias mãos...

Quando ia a perguntar se o homem precisava de ajuda, temendo pela integridade do seu sofá "semi-novo", a admiração deu lugar ao horror...

Ao fazer deslizar o sofá para dentro da carrinha, Damir, ou Damir T o carniceiro dos sofás e das mesas de cabeceira, tinha acabado de ceifar um pé ao sofá!!

-Oh pá, você acabou de me estragar o sofá!

-Qué!? Sofá tinha pé solto já pá! Não vistes o pé a cair sozinho?

-A cair soz... epá, deixa lá... eu depois colo isso ou assim, mas tenham mais cuidado com isso ok? Senão chego lá com tudo estragado...

O tamanho de Damir, ou Damir T o ceifador de extremidades salientes, era algo intimidatório e não aconselhava grandes reclamações...

-Não haver problema sinhor, não haver problema!

Ele não sabia porquê, mas aquelas palavras de Dmitry não o deixavam nem um pouco menos apreensivo ...

E foi assim que Vítor passou a ter um sofá de baloiço...

E uma mesa de jantar rítmica, que batucava ao ritmo dos talheres por lhe faltar uma borracha...

E uma mesa de cabeceira que se aguentava nas 3 pernas porque estava encostada à cama...

Bom, digamos que a mudança não correu a 100%, mas pronto.

Depois também acabaram por fazer um desconto no preço.

Ou mais ou menos...

Vítor no fim da mudança, algo triste por ver que o seu mobiliário tinha sofrido algumas mazelas ainda tentou regatear o preço...

Teve de abandonar essa ideia rapidamente, para o seu próprio bem, já que Damir dizia que precisava de ajudar a família e rejeitava categoricamente que tivesse sido ele a empenar o espelho do hall de entrada...

Por outro lado Dmitry afirmava que tinha de mandar "dinhêr para familia em Russia!"...

Ah e que o sofá tinha escorregado pelas escadas abaixo não porque ele fora descuidado, mas sim porque o sofá só tinha um pé para agarrar do lado dele... pois...

A imagem do pé do sofá a ser capado, levou a que Vítor não se alongasse nos seus intentos, pois se Damir levantava assim os sofás, o que seria se ele pusesse as mãos em cima do Vítor...

Vítor salta da cama e ao mesmo tempo pula para fora de todos aqueles pensamentos.

Já eram 7.30h.

Estava na hora de se arranjar para o trabalho...

Veste-se, come, sem vizinhos a falar alto no piso de cima, sem uma porca a ressonar no quarto ao lado...

Aí vai ele para mais uma segunda-feira...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A mecânica das coisas (7)

Uma casa branca.

.

..

...

Uma rotunda, um eucalipto no centro.

.

..

...

..............

Uma curva à esquerda e uma subida íngreme.

Raúl encosta o carro, baixa o som ao rádio, lança a beata do cigarro pela janela e diz no seu timbre seco com que sempre fala:

-Chegámos. Precisas que espere por ti?

-Não, obrigado... - Responde o colega - Podes ir andando, obrigado pela boleia.

-Ok, vemo-nos amanhã.

-Sim, adeus...

Vê Raúl arrancar no seu Rover cor de cereja, enquanto sacode o casaco para, em vão, tentar livrar-se do cheiro do tabaco.

(Que cheiro horrível...) - Pensa -

(Mania que as pessoas têm de fumar dentro do carro... Será que ele ainda não percebeu de onde veio aquela grande mancha amarela no tecto do carro?)

Olha para o outro lado da estrada e instantaneamente volta-lhe à memória a razão de estar ali. A razão de ter pedido boleia ao Raúl, um colega que normalmente entra no escritório mudo e sai calado. Talvez por isso lhe chamem coisas ternurentas como "o morto" ou "a planta"...

Bem, mas voltando ao que o trazia aquele bairro pouco aconselhável.

Atravessa a estrada e passa debaixo do letreiro que estava sobre a entrada:


"ForniCar"


No norte do país há pelo menos 4 localidades chamadas Fornelos e pelo sotaque do Sr. Esteves, ele ainda não tinha sido capaz de perceber de qual delas é que o homem era originário.

Na volta era dali de perto, de Alfornelos...

Mas aí podia-lhe ter dado um nome mais literado: AlfaCar!

Tudo para a sua viatura, de Alfa a Zeta!

Ou a Ómega... bem, de qualquer das maneiras, via-se que o Sr. Esteves era um homem de humor apurado para ter posto aquele nome à sua oficina...

-Bom dia!

-Bom dia, diga faxavor!

-O meu nome é Vítor Rocha, venho buscar o meu carro, que deixei cá para revisão. É um Lancia Y10...

-O seu nome por favor?

-Vítor Rocha.

-Vítor, Vítor, Vítor... É com ou sem c?

-É sem...

-Ah bom, porque é que não disse logo? O computador não adivinha e eu também não, não é homem? Ora Vítor... Rocha! Aqui está. É um Lancia Y10 não é verdade?

-É sim, tinha-lhe dito há pouco...

-E estava cá para quê? Foi batida foi?

-Não... Para revisão, também lhe tinha dito logo de início...

-Ora muito bem... Então é só um instante que eu vou só aqui imprimir a factura... Ora... Aqui está ela... Portanto, como lhe tinha dito ao telefone, não foi preciso mexer nos travões, nem na suspensão, o motor 'tava bom, o óleo também... Em baixo também não se mexeu...

Ao telefone, o Sr. Esteves tinha dito ao Vítor que após a revisão, pouca coisa tinha sido mexida, pelo que o Vítor, satisfeito, fazia contas a 200€ ou 300€ da revisão, o que até calhava bem porque as coisas não andavam famosas a nível de dinheiro.


-Ora então, são 1100 euros se faz favor!




Vítor baqueou...


Engoliu em seco e na sua cabeça ecoava aquela frase:

mil-e-cem-euros......

mil-e-cem-euros..........

mil-e-cem-euros...............

mil....


-Dd..desculpe?!

-Mil, cento e dois euros! Mas como é para si, fica a mil e cem vá!

-Então mas... Vítor... Rocha... sem C, é essa a factura que tem na mão, é?

-Claro homem, não é um Lancia?

-É sim... um Y10...

-Então, queria que a factura fosse de quem? Hoje em dia já ninguém tem essas caixas de fósforos eh eh... Nós aqui costumamos chamar-lhe o caixão com rodas, eh eh... Bem mas estava eu a dizer, vai pagar em dinheiro ou cartão?

-O caix... herr... bem, vou pagar com cartão... (epá acho que não tenho saldo para tanto!) Mas desculpe lá, diga-me lá o que é que foi mudado... o sr. Esteves tinha-me dito ao telefone que o carro até estava maneirinho...

-E estava e estava, para a idade que tem, não está nada mau, por isso é que também lhe ficou por este valor mais barato.

-Barat... então mas diga, pronto...

-Ora então, isto foi assim: o carro estava todo a funcionar, por mim nem lhe tinha mudado nada, mas aqui o Sr. Esteves como gosta de fazer as coisas pelo seguro, sempre pelo cliente, achou que devíamos trocar a correia de transmissão que já estava assim pró manhosa. Também é só 150€, elas agora tão ao preço da chuva!

E pronto foi só isso.

Só que depois a correia de origem já não se faz, logo foi preciso mandar vir uma nova que é maior e então não dá com os apoios do motor...

Assim, tivemos de mandar vir um apoio novo, e como não podem ficar com diferença uns prós outros, veio um kit de apoios novos, mais os respectivos suportes.

E o Sr. Esteves como é muito cauteloso disse assim: epá até parece mal estarmos a mudar os apoios do motor ao homem e deixarmos as velas e o carter por limpar. Mas depois também a mão-de-obra que o Sr. ia pagar para isso tudo mais valia mandarmos vir novos e então pronto, olhe também não era por mais 300€ que ia o gato às filhoses não é?

-Trezent...

-Ora então, disse que ia pagar com cartão não é verdade?

-Sim... (*suspiro*... a dor no peito não parecia querer passar...)

Vítor entrega o cartão, como quem está a entregar um filho para nunca mais o ver, o empregado passa o cartão e o ecrã pede o código...

****

[POR FAVOR AGUARDE]


...

.....

.......

(Ó que grande bronca, isto não vai passar...)

...

.....

........

[AGUARDE EMISSÃO DE RECIBO]

-BOA!!! herrr.... quer dizer, boa tarde que se está pôr agora para o fim do dia! eh eh...

-Pois... - responde o empregado meio sobressaltado pelo berro vigoroso de Vítor -

(Epá este mês vou ter de andar a sopas...)

-Então e diga lá, arranjaram-me o espelho lateral como eu pedi?

-O espelho... O espelho lateral? Ah sim, o espelho. Ah olhe que o espelho não precisava de arranjo, o Sr. tem é de carregar naquilo com força.

-Com força?

-Sim sim, venha cá que eu mostro-lhe!

Entra o empregado para o carro, um Lancia Y10, e carrega no botão da porta que faz mexer o espelho.

Nada...

-Tá a ver? aperta aqui...

Nada...

-Assim... humpf... hrgggrr...

O espelho jazia inerte...

-Epá, agora não tá a dar... Há pouco.. hrrrrrrrrrrgggggrrrrrr..........

Vítor observava estupefacto que apesar do orçamento enorme que lhe havia sido apresentado, estava à vista que o trabalho realizado não tinha sido dos mais bem executados...

Para além disso, a força empregue pelo empregado da oficina no botão, parecia querer forçar a porta do carro para além dos seus limites...

-Pronto... bem... já sabe que só tem de carregar com força, que isto o espelho está bom, o botão é que tem mau contacto... mas é só apertar com força...

-Então mas... - ia Vítor interpelar -

-Aqui em relação às luzes, tinha-me dito que o farol esquerdo estava mais baixo que o direito, mas não, você é que tem de regular aqui neste botão está a ver?

Ora... Epá...

Olha por acaso só está a subir o direito, mas isto é porque só estou eu aqui no carro, isto com mais peso, o carro sobe a frente e já ficam as luzes iguais...

Vítor estava desolado... Mas pronto, já tinha pago, pouco mais havia a fazer... Se pedisse para lhe arranjarem as luzes e o espelho ainda ia pagar mais... Mais valia estar calado...

-Não sei se precisa de mais alguma coisa...

-Não... está tudo...

-Pronto aqui tem a chave então, obrigado e volte sempre!

(Volto nunca...)

Nisto aparece o Sr. Esteves...

-Então rapaz! Que tal? Ficou aí com um servicinho à maneira e por um preço que se contar a alguém nem acreditam já viu?

-Pois... nem eu acredito ainda...

-Então, que cara é essa? Não me diga que achou caro!?

-Eu por acaso... confesso que não estava à espera deste valor, depois do que me disse ao telefone...

-Mas estava à espera de mais ou menos?

-Mais, mais... assim dá gosto pagar... baratíssimo, baratíssimo...

(Levam-me o dinheiro mas não me levam o orgulho!!)

-Então pronto! olhe se precisar de alguma coisa, passe por cá, estamos abertos todos os dias!

-Sim, sim, passo, passo...

(Se estiver bêbado ou assim...)

Vítor pega no seu Y10, um Lancia e sai da oficina, seguindo caminho rumo a casa.

Continua a ecoar na sua cabeça o valor da reparação e quase que tem vontade de ir à esquadra da policia participar um assalto...

Mas pronto, segue para casa, já não há nada a fazer...

domingo, 9 de março de 2008

Ressuscitar (6)

O dia estava frio mas o sol brilhava...

Tal e qual como estava o espírito de Vítor.

Para trás ficava o edifício do supermercado, para trás ficavam 2 anos de trabalho duro, suado e acima de tudo enriquecedor.

Depois desta experiência, Vítor tinha aprendido que as pessoas que povoam o mundo não são todas iguais.

Percebeu também que por tanto se perderem em coisinhas mínimas e insignificantes, as pessoas são, em larga maioria, fúteis e idiotas.

Compreendeu que por cada 10 pessoas imbecis, há uma na nossa vida que faz com que todas essas sejam absolutamente insignificantes...

E Vítor tinha essa pessoa...

A sua esposa, era uma pessoa que Vítor aprendera a amar apesar do seu feitio difícil.

Vítor reparava como as outras pessoas olhavam para a sua esposa, derivado do seu aspecto "diferente"...

Mas ele não se importava. Ele sabia que as pessoas valem pelo que são e não pelo seu aspecto...

E a sua esposa apesar de ser assim para o fortinha, de ter o cabelo assim para o palha de aço, de ter uns dentinhos a menos e os que ainda tinha serem escuros, era uma pessoa boa lá no fundo...

Era preciso conhece-la.

E Vítor conhecia-a bem.

Agora, sem emprego, Vítor só queria chegar a casa e reconfortar-se nos braços da sua amada.

Apesar dos seus esforços, a esposa de Vítor estava de momento desempregada.

Era Vítor que arcava com as despesas mas sempre confortado pelo facto de que a sua companheira era incansável na procura de emprego.

Ela costumava sair para procurar trabalho, muitas vezes até depois de jantar.

Coitada, saía toda arranjada para tentar que não reparassem na sua fealdade.

Por vezes chegava a casa toda despenteada e amassada, provavelmente por andar de transportes públicos e quem sabe até de andar a pé , ao vento, para poupar dinheiro.

No entanto, coitada, nunca conseguia voltar com boas novas.

Agora a situação era igual para os dois, mas com a força do seu amor, ambos iriam ultrapassar aquela fase.


Chegado à porta do seu prédio, de 1972, Vítor empurra a porta que não tinha já trinco, derivado à erosão dos anos que passavam e à falta de manutenção também...

Sobe as escadas, olha pela centésima vez para os grafites berrantes na parede das escadas do prédio e sobe as escadas de madeira que rangendo o levam até ao terceiro andar, onde vive.

Chegado ao segundo andar, Vítor ouve ao longe algo parecido com gritos.

Era uma voz familiar.

Parecia muito a voz da sua esposa.

Ela estava em apuros!!

Vítor corre escadas acima!!

Parte-se um degrau que estava com a madeira cheia de caruncho!!

Vítor nunca pisava aquele degrau, mas com o pânico nas veias, esqueceu-se e enfiou a perna até ao joelho, esfolando a canela toda!!

A adrenalina no sangue adiou a sensação de dor e num gesto felino, Vítor agarra-se ao corrimão de madeira para se erguer...

O caruncho não se ficava pelo degrau!

Vítor nunca se agarrava ao corrimão, mas naquela altura de desespero, o seu cérebro desligou-se desse pormenor por segundos...

Os suficientes para que Vítor caísse para os seu lado direito, segurando um pedaço de madeira na mão esquerda e ainda com a perna direita enfiada no soalho, começando agora esta a latejar ferozmente...

O desespero era grande, até porque os gritos eram crescentemente altos e desesperados...

Respirando fundo, Vítor apoiou as suas mãos, uma delas cheia de farpas, no chão e conseguiu sair do buraco que o prendia...

Tinha as calças um pouco esfoladas e através da ganga velha, via umas gotinhas de sangue...

Não importava, era altura de agir!!

Com um pouco mais de cautela, Vítor prossegue até ao terceiro andar, onde os gritos ecoavam pelo prédio abaixo...

Vítor avança de forma determinada, de olhos postos na sua porta... Estava fechada...

A sua cabeça era agora uma amalgama de pensamentos horríveis, tentando descortinar o que se passava do outro lado da porta...

Concentrado como estava, Vítor só se apercebeu de um saco com lixo pousado à porta do vizinho, tarde demais...

Estatelado no chão, Vítor sentia agora também o seu joelho esquerdo a doer e ainda parte do seu ombro esquerdo algo dorida do embate contra o corrimão de madeira...

-Mas que raio!

Vítor estava agora furioso por não conseguir controlar o seu terror!

Sentia-se impotente, pois não conseguia chegar a casa, onde algo de errado se passava naquele momento...

E aí, algo se passou...

Os gritos.

Agora ouvia-os bem.

E não eram aquilo que lhe parecera anteriormente...

Não eram gritos contínuos, histéricos, de horror...

Eram algo diferente...

Eram gritos...


De prazer!?

Hã?


Seriam da televisão?

Não... aquela era claramente a voz da sua mulher...

Parecia extasiada...

Que raio...

Vítor levanta-se.

Tira a chave do bolso e mete-a na fechadura e num só movimento, abre a porta de rompão...


Depara-se com uma imagem avassaladora!!


Duas pessoas.

Uma mulher. Um homem. Semi-nús...


-Vítor?!?

-D...Dália?

-Vítor!!

-Dália?!

-O que é que estás aqui a fazer??

-Eu... despedi-me... E tu... vocês... o que estão vocês a fazer, no meu sofá??

-Herr... Vítor... isto não é aquilo que parece...

-Não é? E o que é que isto parece??

-Porque é que não avisaste que vinhas mais cedo??

-Desculpa? Porque é que não avisaste que ias trazer o merceeiro da loja africana cá para casa???

-Sinhô Vírtor... No se trata de nada disso que o sinhô tá a pensar!

-Homem, esteja calado! Não tem vergonha de andar metido com uma mulher casada??

-Casada?? Mas a sinhora Idalina tinha dito que num era casada...

-Está calado Ibraim...

-Por isso é que nunca querias que eu fosse contigo à mercearia!!! Há quanto tempo dura isto??

-3 meses sinhô Vírtor...

-Cala-te Ibraim!

-Discurpe sinhora Idalina...

-3 meses??

-Foi um acidente Vitó, querido...

-Um acidente?? Um acidente foi eu ter-te conhecido, ter-te aturado, ter-te sustentado...
Vou-me embora! Vais ter de arranjar agora outro que te sustente... podes ficar com as coisas todas, não quero nada que me lembre de ti!

-Mas Vitó!!!

Vítor vira costas e sai. Vai-se embora de vez. Contorna o lixo despejado no corredor, salta por cima do buraco no chão das escadas e sai do prédio...

Apesar de traído, Vítor sentia algo que tinha sentido antes nesse dia...

Uma sensação agradável... de liberdade!

Finalmente estava livre da mastronça da mulher.

Afinal, tinha andado este tempo todo a aproveitar-se dele...

Vítor estava agora sem mulher, sem trabalho...

Era hora de mudar.

Era altura de ressuscitar...

Ó chefe... (5)

Hoje, é dia de versar acerca da temática que a todos é familiar: Os chefes!

Todos nós na nossa vida a determinada altura, já fomos ou tivemos chefes e não tenho qualquer dúvida que concordarão comigo que é uma das espécie animais mais intrigantes e fascinantes do mundo animal!

O chefe é um animal que geralmente não dorme muitas horas por dia e quando o faz deixa sempre um olho aberto, pelo menos.

O chefe é um ser que se alimenta bem, geralmente nos sítios mais finos e quase sempre por conta da empresa.

O chefe, veste sempre a roupa mais austera mas sempre com aquele toque de boa disposição que inconfundívelmente associamos a quem pouco faz na vida.

O chefe procria.

E tem filhos.

Mas para ele a sua verdadeira família e filhos são os seus subordinados.

E o chefe é bom chefe de família.





São horas de ir para o trabalho.

Um dia como os outros, pensava o Vítor.

Um dia especial, viria ele a descobrir.

Vítor apresenta-se no trabalho à sua hora normal, como sempre.

-Bom dia!

-Olá Vítor, como está? Olhe, o chefe precisa de falar consigo, por favor diriga-se ao gabinete dele.

-O chefe? O que é que o chefe quer falar comigo?

-Não sei, ele não disse. Vá lá que ele diz-lhe.

O chefe nunca tinha sequer olhado para o Vítor. Geralmente este reportava directamente às supervisoras e pouco mais...

Toc! Toc!

-Sim?

-Herr... Sr. Antunes, posso?

-Sim, entre e feche a porta. E sente-se. E deite fora a pastilha. E ponha-se direito homem! Ainda vem a dormir ou quê?

-Herr.. desculpe Sr. Antunes... Sim, Sr. Antunes... Com certeza Sr. Antunes...

-Oiça lá... você sabe onde é que está?

-Herr... no seu escritório, Sr. Antunes...

-NÃO, SUA BESTA!! Estou-lhe a perguntar se sabe onde é que trabalha, se já percebeu o que é que anda cá a fazer!!

-Herr... Sr Antunes...

-CALE-SE! Oiça lá, tenho aqui um papel, sabe o que é isto??

Vítor conseguia perceber perfeitamente que aquela folha amarelada era uma reclamação....

-Uma folha?

-E mais?

-Uma folha amarela?

-Não pá, se sabe pra que serve esta folha, pá!

-Herr... eu acho que é uma folha de reclamação...

-CALE-SE!

-Sim Sr. Antunes...

-Isto aqui é uma reclamação de uma cliente, porque você devia estar com algum problema nas mãozinhas e esqueceu-se de ensacar as compras a esta cliente! Tá a perceber??

-Sr. Antunes...

-Não diga nada que eu não lhe perguntei nada! Aqui quem fala sou eu!

-Sim, Sr. Antunes.

-E agora o que é que eu lhe faço hã?

-Bem...

-Já lhe disse para tar calado enquanto eu não lhe perguntar nada!

(Mas, ó amigo tu ainda não fizeste outra coisa senão fazer perguntas...)

-Sim Sr. Antunes...

-Vou pô-lo de castigo porque você anda aqui a brincar com isto! Acha bem?

-Eu...

-Escute homem! Você não se cala nem por nada! Já estamos aqui há dez minutos e ainda não me explicou porque é que nesta reclamação tem o seu nome!!

-Mas é que o senhor...

-E não esteja a falar por cima de mim! Quando um burro fala, os outros baixam as orelhas!! Sua besta! Não lhe ensinaram isso?

-É que...

Bem, acabou esta conversa. Já lhe disse tá de castigo. Vai ficar dutrante um mês, um mês hã, na lixeira a processar o lixo.

-Desculpe??

-Acha mal? E mesmo assim já estou a ser seu amigo!! Que eu devia era despedi-lo!!

Despedir-me?? Lixo?? Desculpa??

-Vou-me embora!

-Diga?

-Não admito que me ponha de castigo por uma coisa que eu não fiz e sobre a qual nem me deixou explicar, por isso vou-me embora!

-Isso é que era bom, aqui ninguém se vai embora sem eu dizer!

-Ai não? Então tenha uma boa tarde!

Vítor tira do bolso um papel...

-Sabe o que é isto? É um papel branco. E sabe para que serve e porque é que tem o meu nome? É uma carta de demissão.

-Mas como é que...

-Ia apresentá-la hoje ao fim do dia mesmo, mas já que me fez este favor de me libertar antes, volto a dizer: tenha uma boa tarde!

-Ah então mas para onde é que vai?

-Não lhe interessa, de qualquer das formas não vou aturar bestas como o Sr.! Adeus e felicidades!

Vítor sai, uma sensação de alívio e felicidade invade-o.

Livre outra vez. Livre do Super!

Velhas (4)

Hoje vou-vos falar da maior ameaça ao mundo civilizado tal como o conhecemos:

As velhas!

As malditas velhas, as chatas e irritantes, caquécticas e enervantes, velhas!

A maior parte de vocês pode achar isto estranho, mas eu posso explicar...

As velhas são uns animais que medem cerca de 1,50m, têm duas fileiras de dentes, geralmente desmontáveis, andam sempre marrecas e muitas delas têm o cabelo cor-de-rosa/roxo...

Logo aqui temos uma coisa muito estranha!

Porque raio é que as velhas têm o cabelo púrpura ou lá o que é aquilo?

E tufoso?

Parecem um algodão doce! E que fala!

E dizem coisas ainda por cima!

Geralmente é para pedir coisas.

Pedir o lugar no autocarro, pedir o lugar no posto médico, pedir o lugar na fila do supermercado...


Estava Vítor a laborar na sua rotina diária, oscilando entre o prazer de ensacar e a felicidade de registar os produtos, entre a fantasia de dar o troco e o orgulho de dizer bom dia e obrigado...

Fila de cinco pessoas.

Chega uma sexta.

Sapatinho preto. Saia verde. Camisa roxa com riscas verdes. Cabelo roxo. Um roxinho doce fazendo lembrar algodão...

-Olhe!

Vítor olha.

-É pra pagar!

Diz ela do fim da bicha.

-Vai fechar, esta caixa?

Hã?

-Pode-me atender?

O quê? Mas acabei de chegar, porque raio havia de ir fechar já?

-Posso, posso minha senhora, vai ter de aguardar só um minuto.

Vítor acaba de atender o cliente que estava à sua frente e nisto não repara que a velha já tinha contornado a fila por trás e sem que as pessoas se apercebessem...

-Já me pode atender?

-Herr... minha senhora, tinha estes senhores à sua frente...

As pessoas chispavam fagulhas dos olhos... Mas é preciso respeitar os mais velhos...

É esta a arma delas! Encontraram a nossa fraqueza e exploram-na sem escrúpulos!

São implacáveis, autênticos enviados de Satanás, sem coração nem misericórdia!

Quem é que é capaz de negar dar passagem a uma velha que parece que se vai desmontar toda?

-Só se os senhores não se importarem...

Os outros clientes encolhem os ombros e bufam...

E Vítor cumpre os seu destino: regista!

Manteiga Becel... Bip!

Laca para cabelo... Bip!

Cápsulas coro cabeludo... Bip!

Tena pants... Bip!

E estas até eram e forma de tanga para usar com uma cueca sexy...

Estranho...

Hora de pagar.

-Quanto é?

-É 47,30€ se faz favor.

-Tanto?

-Minha senhora...

-Não se enganou, veja lá bem! Tou a achar muito!

Vítor confirma, tudo normal!

-Quanto é que são as cápsulas?

-São 16,50€...

-Ai mas não era isso que estava lá marcado!

-Então, quanto é que lhe pareceu ter visto?

-Era uns dezasseis e pouco não passava disso!

Hã?? Tás a gozar comigo só pode...

-Mas minha senhora, isto é 16,50€...

-Não pode ser, assim não levo!

-Mas quer que eu confirme o preço?

-Quero quero! Isso está mal, é enganar as pessoas!

Vítor pega no telefone e liga ao departamento.

-Estou?

-Sim, sim?

-Colega pode-me confirmar o preço das cápsulas para o coro cabeludo?

-Só um momento... é 16,50€!

-Ok, obrigado então...

-Está certo o preço minha senhora...

-Ah e a manteiga quanto é?

Oh minha mãe!

-3,45€! Sempre vai levar as coisas ou deixa ficar?

Nisto a fila tinha passado para o dobro das pessoas e mais de metade delas estava a um milímetro de arrancar a cabeça da velha com as próprias mãos...

Assim tipo rodar a tampa de uma garrafa de agua... conseguem imaginar? eh eh...

Trak... trrrrakk!

-Ai tá bem mas não venho cá mais, isto é um roubo!

Siga...

A velha saca do seu cartão de cliente para pagar, Vítor passa na ranhura: --OK--

-Assine aqui por favor.

E aqui cria-se outro grande mistério semelhante ao do cabelo rosé!

Ela tira os seus óculos grandes tipo rodas de bicicleta e afasta bem a folha para onde vai assinar...

Depois aproxima a cara do papel parando apenas a dois centímetros para depois voltar a afastar...

Ela claramente não estava a ver um palmo à frente da verruga...


Vítor estende-lhe a caneta e aqui algo de estranho se passa.

Ela não só não conseguia ver o talão a mais de um polegar, como não consegue ver a mão do Vítor a segurar na caneta e vai de dar umas cabeçadas nos dedos dele entrelaçando a caneta Parker na sua farta cabeleira cor de flamingo...

-Oh minha senhora...

Ela recua, volta a pôr os óculos e olha para ele...

-Sim?

-Herr... pode assinar se faz favor...

Ela volta a tirar os seus grandes óculos e vai de começar a tactear o talão e a caneta...

Finalmente lá segura em ambos e de forma surrealista assina metade na folha, metade na passadeira das compras...

-Ai não sei se ficou bem, veja lá...

É pá, mas a mulher vê mal que sa farta e para tirar os óculos antes de assinar ainda deve ver pior com eles... a não ser que seja mesmo trolha!

-Está bom sim, obrigado!

Dez minutos depois de ela ter chegado para arruinar o dia das pessoas que estavam atrás de si, eis que ela pega no saquito e se despede.

Com os óculos bem fixados acima da verruga, olha para a placa do nosso amigo a um metro e meio de distância e diz:

-Ah chama-se Vítor como o meu filho... logo vi que era bom rapazinho...

Epá... tenho de fugir daqui!!

Badalhocos e Taralhocos (3)

Há pessoas, certas pessoas, que pensam que porque se vão sujar no trabalho, não vale a pena tomar banho.

Para quê?

Vão-se sujar outra vez. Ainda por cima levam a mesma roupa para a semana toda.

É no sovaco de uma dessas pessoas que o nosso amigo do costume começa o dia...

Hoje, não havia lugares vazios, nem mesmo ao pé da janela, longe da cortina.

Então lá tem ele de ir em pé, bem apertado contra um indivíduo que bem à moda antiga, só usa desodorizante para ir à missa.

E às meninas.

Já têm mais sorte que o Vítor elas. Por isso é que lhe chamam vida fácil, se calhar.

Saído do autocarro, ar fresco finalmente. Durante 5 segundos, porque é hora de entrar no metro e, quem sabe, de conhecer um novo sovaco.

Para aceder ao metro é que é outra complicação. Apesar de a porta de entrada ter 6 metros de largura, apenas um metro e meio está utilizável dado que o restante está ocupado pelos lençóis cheios de DVDs piratas que as ciganas vendem.

À esquina um polícia municipal, a fumar descansado da vida.

É Portugal.


Chegado ao trabalho, 9 ciganas, 4 sovacos, 3 romenas de bebé ao colo e 2 mendigos depois, eis que verdadeiramente começa o dia útil de Vítor.

Não tem nada a perder.

Venha o que vier, ele não se importa.

Não há que fugir às responsabilidades.

O mais provável é ficar na caixa rápida e mesmo que assim não seja, no fim do dia vão-lhe doer as costas.

Tudo bem.

-Bom dia!
-Olá! Como está Vasco?
-Vítor.
-Desculpe, ah ah, estou sempre a trocar o seu nome Vítor.
-Pois…
-Olhe, abra-me a caixa 21 se faz favor.
-Ok.



Neste momento está o caro telespectador a sentir uma sensação mista de surpresa com alívio.

Não vai para a 7! – Concluiu o espectador.

Vamos ver se é assim tão bom…


Atendidos os primeiros clientes, não se fez tardar o bico dobra do dia…

-Bom dia!
-Bom dia.
-É para entregar em casa, pode ser?
-Pode sim, qual é o código postal?
-É já ali na Expo.
-Sim, mas o código postal sabe?
-Eles já têm lá ido muitas vezes…
-Exacto, nós percorremos a cidade toda, mas preciso do código postal, porque é por aí que fazemos as marcações consoante a zona…
-Ah, é o 1900!

(se sabias porque não disseste logo?)

-Quando é que quer receber as compras? Hoje?
-Ah sim, pode ser?
-Pode sim, deixe-me só confirmar… Até às 15h pode ser?
-Ai tão tarde, precisava das coisas para o almoço…
-Pois, é que já é quase meio dia…
-E as coisas chegam bem?
-Sim, chega tudo em condições.
-É que da última vez os tomates chegaram todos esmagados.
-Pois… herr…
-E o peixe chegou todo moído!
-Isso pode ser…
-E as mangas estavam todas tocadas…

(Porra, então porque não levas tu as coisas??)

-Nós vamos ter mais cuidado, vou deixar tudo por cima para não haver problemas…
-E cuidado com os ovos!
-Tudo bem…
-E com as saladas e as alfaces… e as uvas e os hamburgers…
-Sabe, às vezes o problema é que quando são muitas coisas frágeis, algumas têm de ficar mais por baixo…
-Ah mas não têm de ser os tomates!!

(Esquece…)

-E isso chega a horas?
-Sim, em principio sim…
-É que da última vez marcaram-me para as 20h e só me chegaram as compras à uma da manhã.
-Pode ter sido algum atraso pontual…
-Não que as coisas chegam-me sempre atrasadas!

(Mas continuas a cá vir…)

-Os congelados chegam bem?
-Vão já para a arca…
-Veja lá que de vez em quando chega-me já tudo descongelado!
-Muito bem…

(Laralalala…)

-Como é que a senhora vai efectuar o pagamento?
-VISA, pode ser?


(tanta cagança para ficar a dever…)


-Pode sim.


O visor diz “não autorizado”…


-O seu cartão não permite efectuar o pagamento…
-Ah deixe estar, eu pago com cheque…

(he he he!)


O Vitor insere os dados e no visor observa: "cheque pendente".

(Iupi!)

-Ah... então e agora?

Pergunta a aventesma...

-Não sei... diga-me a senhora!

-Ah... posso passar cá mais tarde com o cartão do meu marido?

(Se não estiver sem saldo também, eh eh!)

-Pode sim, nós deixamos-lhe as compras guardadas.

-Então eu já volto...

-Com certeza... boa tarde...



Uma hora depois, tempo de ir almoçar.


Enquanto caminha para a sua refeição em tuperware, Vítor vai pensando para si próprio:

(As ciganas, o tipo que cheira mal, as romenas, a chata da cliente… Todos seres humanos… Gosto mesmo do meu cão…)